Entre os anos de 2012 e 2013 me peguei diante de uma sensação enorme de frustração com o meu trabalho como fotógrafo. Estava fazendo de tudo e ao mesmo tempo não fazia nada. Não estava enxergando uma motivação no meu trabalho, e muito menos uma importância. Percebi que eu estava impondo limites a minha fotografia, e isso, para um fotógrafo é o maior dos pecados.

Pensei em desistir. Mas eu ainda gostava de fotografar. Foi então que comecei a buscar inspiração; e ela veio, na medida exata. Após o contato com 2 fotógrafos que admiro e tenho como referência, recebi a dose certa de motivação para sair daquela situação.

O primeiro “tapa” veio com o mestre Sebastião Salgado, na abertura da sua exposição Gênesis aqui em Curitiba. Em certo momento ele contou que logo no início da sua carreira, teve um pensamento e encarou isso como missão, na época ele pensou “quero deixar um legado com o meu trabalho”  (pééééin..um direto no queixo desse que vos escreve) E eu na época somente preocupado em pagar minhas contas no fim do mês.

O segundo “tapão” veio do hispânico brasileiro J.R. Duran, que para geral é conhecido como fotógrafo da Playboy; dá pra dizer que isso é a ponta do iceberg do trabalho do cara. Enfim, em uma entrevista para a Marília Gabriela ele contou sobre uma passagem da sua carreira.. “tinha uma época, durante minha carreira, em que eu ESTAVA um fotógrafo, eu não ERA um fotógrafo”  (péééin..esse eu nem vi de onde veio)

Era isso! Naquela época, meu trabalho não deixaria muita coisa além da memória e eu como profissional, estava me tornando um mero operário da fotografia. Um apertador de botão. A fotografia ainda não fazia parte da minha vida, eu não respirava fotografia.

Meu trabalho não tinha significado, um sentido o se quer uma motivação.

Foi então que juntei essa frustração temporária e a antiga vontade de fazer trabalho voluntário, pra tentar mudar esse cenário. Percebi que precisava fotografar outros motivos e livremente, sair completamente da minha zona de conforto, que não estava me levando a lugar nenhum.

Comecei um trabalho de registro para a ONG Transforme Sorrisos, que há 6 anos atua em Curitiba e região levando acesso a cultura à várias crianças, que provavelmente, nunca teriam essa oportunidade. Até aula de surf na Ilha do Mel já rolou!

E a história que trago aqui, foi a resposta logo no início que obtive, de como é importante e essencial para a vida do ser humano, praticar o trabalho desinteressado pelo próximo. Como isso nos faz evoluir, desenvolver um autoconhecimento profundo e por fim mudar a forma como enxergamos o mundo.

Essas fotos foram feitas em uma pequena aldeia indígena, na região de Piraquara, chamada Araçaí. Fomos até realizar uma entrega de roupas e logo quando chegamos avistei o nosso personagem.

Ele já estava fotografando quando chegamos. Ele tinha à mão, um pequeno celular de brinquedo, daquele modelo antigo, que nem câmera tinha, mas aquele buraquinho servia para enquadrar o seu mundo. E naquele dia ele fez muita foto!

Fotografou nosso grupo, me fotografou, fotografou seu gatinho e até selfie ele fez.

Aquele menino, por volta dos 7 anos de idade, mesmo vivendo em condições pouco favoráveis,  já é um fotógrafo. E com aquela atitude, já de cara ele me fez pensar; e se ele tivesse mais acesso, mais informação? E se ele pudesse usar uma câmera de verdade, fazer um curso, trabalhar como fotógrafo? Ou melhor, por que não ter acesso?

Fazer esse tipo de trabalho exige uma entrega sim de cada um de nós. Mas já que estamos de passagem por aqui, por que não fazer da melhor forma possível!?

Nós temos a obrigação sim, além de trabalhar por nós mesmos, diariamente, de exercer também um trabalho por aqueles que não tem a opção da escolha. Nós temos tudo e ainda reclamamos pra c@*%lho…

Assim comecei a perceber como deveria ser a minha relação com a fotografia, a partir daquela experiência.

Não interessa qual a sua profissão ou a ferramenta que você utiliza, faça o melhor com ela.

Vamos juntos nessa idéia?

Por um mundo melhor.

BS

05/09/2017